Como é a vida na EPCAr de verdade
- A rotina vai do toque de alvorada às 6h ao horário de dormir: aula pela manhã, esporte à tarde, formação à noite, todos os dias, sete dias por semana.
- O primeiro ano é o mais difícil de todos, com menos liberdade de horário e mais apresentações. A partir do segundo ano a rotina fica bem mais tranquila.
- O TAF não é só uma prova de entrada. Dentro da escola ele volta a ser aplicado, e o resultado conta para a classificação do aluno na turma.
- Desistir não é reprovar. É um pedido formal de desligamento, e quem sai não perde nada além da vaga: o autor deste texto saiu depois de um ano e meio e não se arrepende.
- É internato de verdade: alojamento, rancho, vida financeira independente da família, e distância de casa que pesa tanto quanto a rotina de estudo.
A vida na EPCAr é internato de verdade: alvorada às 6h, aula de manhã, esporte à tarde, formação à noite, sete dias por semana, com um primeiro ano bem mais duro que os seguintes. Eu entrei em 2023, na turma Thunderbolt, fiquei um ano e meio e decidi sair. Não foi fracasso, foi escolha. E é dessa vida inteira, sem esconder a parte difícil, que este texto trata.
Não é relato de quem passou de longe olhando foto no Instagram do canal. Eu dormi lá dentro, fiz alvorada, fiz ATC, entreguei o pedido de desligamento com a farda ainda no corpo. Cruzei aqui minha própria experiência com a de outro aluno do canal, o Nicolas Bernardo, quinto colocado no concurso de 2024 e hoje no terceiro ano, porque a vida muda bastante conforme o ano da turma, e vale ouvir mais de uma pessoa antes de decidir.
Como é a rotina de um dia na EPCAr, hora por hora?
Começa com o toque de alvorada, 6h da manhã, sem exceção. Dali em diante o dia é dividido em blocos fixos: café da manhã, aula, lanche, mais aula, almoço, descanso curto, mais aula ou palestra, troca de farda, esporte, banho, janta e a formação da noite antes de dormir. É repetitivo de propósito. A escola não deixa buraco de tempo livre sobrando, principalmente no primeiro ano.
| Horário | O que acontece |
|---|---|
| 6h | Toque de alvorada, início do dia |
| 7h às 9h25 | Aula |
| 9h25 | Lanche da manhã, o matutino |
| Até por volta do meio-dia | Últimas aulas da manhã |
| Depois das aulas | Almoço e descanso curto no alojamento |
| 14h às 15h | Aula ou palestra |
| 15h às 16h | Troca de farda para educação física |
| 16h às 18h | Esporte: judô, natação, basquete, atletismo, esgrima, xadrez, futebol, entre outros |
| A partir das 18h | Banho, janta e formação da noite |
Esse horário é o mesmo relatado pelo Nicolas, do terceiro ano, mas o detalhe que ele faz questão de separar é outro: essa grade vale para todo mundo, só que o tanto de apresentação e entrada em forma dentro dela muda demais de um ano para o outro.
O primeiro ano é mesmo o mais difícil?
É, e a diferença para o segundo ano é grande o suficiente para mudar como a pessoa enxerga a própria escola. No primeiro ano tem entrada em forma de manhã e outra à noite, antes da janta, e essa segunda demora: às vezes o aluno só é liberado perto das 9h da noite. Também é o ano em que o cadete ainda não conhece a rotina, ainda erra o jeito de arrumar o armário, a cama, a farda, e paga um preço de tempo por isso. A partir do segundo ano essa cobrança cai bastante.
O primeiro ano, a rotina no geral é mais difícil. Segundo ano, o meu segundo ano foi um milhão de vezes mais tranquilo. Consegui fazer um monte de coisa que eu queria ter feito no primeiro e não conseguia.Nicolas Bernardo, 5º colocado no concurso da EPCAr para ingresso em 2024, em vídeo do canal do Elementar
Na minha turma foi parecido. No primeiro ano eu não conseguia nem prestar atenção direito em aula, porque a cabeça ainda estava processando a mudança inteira: sair de casa, virar rotina de quartel, aprender a lidar com gente nova. No segundo ano a pessoa já sabe se virar sozinha, e aí sobra espaço de verdade para estudar, treinar esporte ou até estudar para outro concurso, como eu conto mais à frente.
Como funciona o internato, e o que muda em ficar longe de casa?
A EPCAr fica em Barbacena, Minas Gerais, e funciona como internato completo: o aluno mora lá, dorme em alojamento coletivo, come no rancho da escola e não paga as próprias contas. Os pais deixam de gastar com curso, material e até parte das contas de casa, porque o aluno passa a viver da estrutura da escola. Isso é liberdade financeira real, cedo, e para muita gente é a primeira vez.
O lado que ninguém anuncia é a distância. Voltar para casa depende de logística e de custo de passagem, então quem mora longe volta menos que quem mora perto, e isso pesa de verdade na cabeça de um adolescente de 14, 15 anos. Eu mesmo ia pouco para casa, mais por opção financeira do que por regra da escola, e hoje entendo que isso ajudou a construir a sensação de estar fora do lugar que carreguei o tempo todo que fiquei lá. Se o seu filho é muito grudado em casa, vale conversar sobre isso antes da matrícula, não depois.
O TAF é só uma prova, ou é parte da rotina inteira?
O TAF do concurso de admissão é eliminatório: apto ou não apto, e acaba ali. Mas dentro da escola o TAF volta, várias vezes ao ano, e aí ele conta para a classificação do aluno dentro da própria turma. Treinar corrida, abdominal e flexão não é coisa que fica para trás depois da aprovação. Vira rotina de toda semana, na sessão de educação física.
E o preparo físico não aparece só no TAF. No ATC, a atividade de campanha que todo aluno faz no primeiro, segundo e terceiro ano, o físico é testado de outro jeito: pista de obstáculo, rastejo, orientação com mapa e bússola debaixo de sol forte, carregando mochila pesada. Na minha turma teve uma noite em que a gente ficou entrando na água gelada de meia em meia hora, por causa de um erro de disciplina de parte do esquadrão, quase até de madrugada. Foi duro. Também foi uma das experiências que mais me marcaram lá dentro, e não do jeito ruim. Isso é para dar uma noção real do tanto de exigência física que a vida na EPCAr cobra o ano inteiro, não só no dia da prova.
Dá para ter vida própria dentro da rotina, tipo esporte ou outro concurso?
Eu competi de judô representando a EPCAr numa competição contra a EEAR e a AFA, perdi a luta para um adversário com bem mais tempo de tatame, e voltei de lá com outra visão sobre o tamanho do mundo militar fora da minha própria escola: a EEAR sozinha é maior que a EPCAr inteira. Esporte é parte oficial da rotina, todo santo dia à tarde, então nem é preciso abrir mão de aula para isso.
Estudar para outro concurso, tipo EsPCEx ou AFA, também é comum, mas exige organizar o próprio tempo dentro dos buracos que sobram:
- Aula de matéria já dominada. tempo usado para revisar outro assunto, sem abrir mão da presença em sala.
- Manhã de fim de semana. um dos poucos blocos de tempo livre da rotina de internato.
- Trocar hora de dormir tarde por acordar mais cedo. ajuste de horário dentro da própria agenda, sem tirar tempo de outra atividade.
O Nicolas usou esse último método na reta final da EsPCEx, foi aprovado, e hoje segue os dois caminhos ao mesmo tempo. Não é fácil, e o tempo de estudo de um aluno interno nunca chega perto do de quem está em casa. Mas dá.
O que acontece com quem desiste no meio do caminho?
Comigo, aconteceu isso: um ano e meio depois de entrar, pedi desligamento. Ninguém me expulsou, não reprovei em nada, simplesmente decidi que aquela carreira não era a minha. Eu nunca quis ser da Aeronáutica de verdade. Meu sonho sempre tinha sido o Colégio Naval, mudaram a regra de idade bem na minha última tentativa de prestar aquele concurso, e a EPCAr foi o que sobrou. Entrei, passei, tentei genuinamente gostar da aviação, estudei manual de voo por conta própria, usei o clube de voo virtual da escola inteiro. Não colou.
O que pesou mais na decisão não foi a rotina puxada. Foi perceber que a carreira de oficial, sete anos de formação inteira dedicados a isso, não parecia valer a troca para mim: quem se forma piloto passa boa parte da carreira voando cada vez menos, porque sobe de posto e vira função administrativa cedo. Uma conversa com um tenente sobre o motivo de estar voando cada vez menos, e outra com um tenente-coronel da reserva, num encontro de turmas antigas da escola, resumiram isso melhor do que eu conseguiria sozinho.
Mais importante para você ser feliz profissionalmente, você precisa de três coisas: ser justo, ser honesto, e ser feliz no que você está fazendo.Um tenente-coronel da reserva, aluno de turma antiga da EPCAr, em conversa relatada por Daniel Cury
Uma semana depois dessa conversa, entreguei o pedido. E aqui vai a parte que ninguém conta: sair não é simples, mesmo quando é a decisão certa. Tem gente que constrói amizade que vira família ali dentro, tem a carreira que parecia garantida, tem os pais que investiram expectativa junto com o dinheiro. Nada disso é imposição legal. Entrar na EPCAr é escolha voluntária, sem relação com o alistamento militar obrigatório. Mas psicologicamente pesa como se fosse.
Hoje, anos depois, não me arrependo. Sou mais feliz fora do que teria sido forçando uma carreira que não era minha. E se você está do outro lado dessa dúvida agora, candidato ou pai lendo por cima do ombro, a pergunta que vale a pena fazer é essa: essa é a carreira que eu quero para os próximos trinta anos, não só para os próximos três de escola. Quem responde isso com honestidade raramente se arrepende do caminho que escolhe, entrando ou saindo.
Perguntas frequentes
Como é a rotina diária de um aluno da EPCAr?
O primeiro ano na EPCAr é mais difícil que os outros?
O TAF da EPCAr conta nota depois que o aluno já foi aprovado?
É verdade que a EPCAr é internato, e o aluno fica longe de casa o ano inteiro?
O que acontece com quem desiste da EPCAr no meio do curso?
Dá para estudar para outro concurso militar sendo aluno da EPCAr?
Todo aluno entra na EPCAr do mesmo jeito?
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Daniel Cury
Ex-aluno da EPCAR, fiz parte da melhor turma que já passou pela escola, a Thunderbolt. Professor de Matemática e diretor do Elementar Preparatório, apaixonado por ler e aprender, mas o que eu realmente amo é ensinar.



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